quarta-feira, 16 de julho de 2008

Companheiro


Depois do conto, me deparei com uma muralha.
Incrível, difícil de acreditar, mas demorei aproximadamente 6 anos para ler esse livro.
Exigiu muita vontade. Cada vez que eu o pegava me prendia na leitura, mas como requer um tempo maior de concentração, devido ao estilo da escrita, não conseguia dar continuidade.
Fui realmente conseguir lê-lo, de uma vez em praticamente uns três dias, quando fui trabalhar num lugar um tanto “estranho” a vista de todos, no Cemitério (não, eu não era sepultadora, era digitadora de óbitos – RS). Talvez o ambiente me levava para dentro do livro. Talvez a solidão estranhamente vivida por mim, tenha me ajudado a entender este livro. Foi um desafio. Venci.
Uma cena diária minha é descrita por Saramago...


“(...) Comeu a omeleta devagar, em pedacinhos geometricamente talhados, fazendo-a render o mais possível, apenas para ocupar o tempo, não por deleite gastronómico. Sobretudo, não queria pensar. O imaginário e metafísico diálogo com o tecto servia-lhe para encobrir a total desorientação do seu espírito, a sensação de pânico que lhe vinha da idéia de que já não teria mais nada para fazer na vida, se, como havia razões para recear, a busca da mulher desconhecida havia terminado. Sentia um nó duro na garganta, como quando lhe ralhavam quando criança e queriam que ele chorasse, e ele resistia, resistia, até que por fim as lágrimas saltavam, como também começaram a saltar agora por fim. Afastou o prato, deixou prender a cabeça sobre os braços cruzados e chorou sem vergonha, ao menos desta vez não havia ninguém ali para se rir dele. Este é um daqueles casos em que os tectos nada podem fazer para ajudar as pessoas aflitas, têm de limitar-se a esperar lá em cima que a tormenta passe, que a alma se desafogue, que o corpo se canse. (...)”

Trecho de Todos os Nomes, de José Saramago.


Sempre ouvindo algo: Noite Severina, com Ney Matogrosso

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