quarta-feira, 30 de julho de 2008

Minha Amada Imortal / Som Brasil – Edu Lobo

De sexta para sábado fiz uma dobradinha ótima!
Revi Minha Amada Imortal que reprisava na TV Cultura, enquanto aguardava o Som Brasil.
Coincidentemente um novo amigo tem falado de música clássica para mim (algo que não entendo nada! – muito paciente ele) e citou Beethoven.
Segue um trecho da carta encontrada junto com o testamento de Beethoven:


Manhã de 6 de julho
Meu anjo, meu tudo, meu eu... Por que esta profunda tristeza quando é a
necessidade quem fala? Pode consistir nosso amor em outra coisa que em
sacrifícios, em exigências de tudo e nada? Esqueceu de que você não é
inteiramente minha e de que eu não sou inteiramente seu? Oh, Deus!
Contempla a maravilhosa natureza e tranqüiliza seu ânimo na certeza do
inevitável. O amor exige tudo e com pleno direito: eu para com você e você
para comigo. No entanto, duvida tão facilmente que eu tenho que viver para mim
e para você. Se estivéssemos completamente unidos, nem você nem eu estaríamos
nos sentindo tão desolados. Minha viagem foi horrível...
Alegre-se, você é o meu mais fiel e único tesouro, meu tudo como eu para você.
No mais, que aconteça o que tenha que acontecer e deva acontecer; os deuses
saberão o que fazer...
Tarde de segunda-feira. Você sofre. Ah! onde estou, também ali está você
comigo. Tudo farei para que possamos viver um ao lado do outro. Que vida!!!
Assim!!! Sem você... perseguido pela bondade de algumas pessoas, que não quero
receber porque não as mereço. Me dói a humildade do homem diante do homem. E
quando me acho em sintonia com o Universo, o que sou e quem é aquele a quem
chamam o Todo Poderoso? E sem dúvida... aí então aparece de novo o divino do
homem. Choro ao pensar que provavelmente não receberá minha primeira carta
antes de sábado. Tanto como você me ama, muito mais a amo!... Boa noite! Devo
ir dormir. Oh, Deus! Tão perto! Tão longe! Não é nosso amor uma verdadeira
morada do céu? E tão sólido como as muralhas do céu?!
***
7 de julho
Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam meus pensamentos em você, minha amada
imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos.
Viver sozinho me é possível, ou inteiramente com você, ou completamente sem
você. Quero ir bem longe até que possa voar para os seus braços e sentir-me
num lugar que seja só nosso, podendo enviar minha alma ao reino dos espíritos
envolta em você. Você concordará comigo, tanto mais conhecendo minha
fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca...
Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim? Minha vida, o mesmo
aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Você, amor, me tem feito ao
mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo de que preciso
de uma certeza em minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso
relacionamento? Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso
me faz pensar que você receberá a carta em seguida.
Fique tranqüila. Contemplando com confiança nossa vida alcançaremos nosso
objetivo de vivermos juntos. Fique tranqüila, queira-me. Hoje e sempre, quanta
ansiedade e quantas lágrimas pensando em você, em você, em você, minha vida,
meu tudo! Adeus, queira-me sempre! Não duvide jamais do fiel coração de seu
enamorado Ludwig. Eternamente seu, eternamente minha, eternamente nossos.

Já o Som Brasil...



http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM858893-7822-NA+CARREIRA,00.html

EDU LOBO
por Zuza Homem de Mellopara a Enciclopédia da Música Brasileira© 1998 Publifolha
Eduardo de Góes Lobo - compositor, instrumentista, arranjador e cantor.Nascido no Rio de Janeiro, RJ, em 29/08/43.


Filho do compositor Fernando Lobo, foi criado no Rio de Janeiro e na casa dos tios, em Recife, PE, onde passava as férias escolares. Seu primeiro instrumento foi o acordeon, que estudou dos oito aos 14 anos. Fez os cursos ginasial e colegial no Colégio Santo Inácio, e por essa época já tentava algumas composições.
Na PUC cursou Direito até o terceiro ano. Com 16 anos começou a se interessar pelo violão, iniciando-se com um amigo de infância, o compositor Theo de Barros, e estudando teoria musical, mais tarde, com Wilma Graça. Por volta de 1961, passou a frequentar shows, principalmente no Beco das Garrafas, em Copacabana, onde assistia a espetáculos dos representantes da nova geração musical, entre os quais João Gilberto, Sergio Mendes, e Luis Eça (do Tamba Trio). No ano ano de 1961, conheceu o poeta Vinicius de Moraes que fez a letra para Só me fez bem, gravada em 1967 no LP Edu-Betânia, da Elenco. Nessa época, com Dori Caymmi e Marcos Valle formou um conjunto que chegou a atuar em programas de TV e em shows.
Seu pai incentivou-o a gravar o seu primeiro disco, um compacto duplo com quatro músicas de sua autoria, bem dentro do estilo intimista característico da bossa nova, cuja contracapa foi escrita por Vinicius, seu novo e importante parceiro.
Logo ampliou seu trabalho com temas e motives da cultura popular, graças à influência de Sergio Ricardo, João do Vale, Carlos Lyra e principalmente Rui Guerra, seu parceiro em Canção da terra, Reza e Aleluia, canções representativas dessa nova fase de criação, marcada por seu conteúdo social. Começando a compor para teatro, escreveu em 1963 as músicas para a peça Os Azeredos mais os Benevides, de Oduvaldo Viana Filho.
Entre elas a canção Chegança (com letra de Oduvaldo Viana Filho) alcançou grande sucesso. Outro êxito Borandá (letra e música de Edu), foi incluído na peça teatral Opinião, musical de protesto estreado no Rio de Janeiro em 1964. Ainda nesse ano, escreveu músicas para O Berço do Herói, peça teatral de Dias Gomes, e foi convidado por Gianfranceso Guarnieri para participar da realização de um musical cuja idéia nascera da canção Zambi, (com Vinicius de Moraes). Em maio de 1965 estreou no Teatro de Arena, em São Paulo SP, Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, musicada por ele.
Entre as canções do espetáculo, Upa Neguinho, com Guarnieri tornou-se mais tarde um grande sucesso, cantado por Elis Regina. Em abril desse ano, inscreveu-se no I FMPB, da TV Excelsior de São Paulo, com duas músicas, Aleluia (com Rui Guerra) e Arrastão (com Vinicius de Moraes), ambas já gravadas em LP da Elenco, cuja distribuição foi adiada para que ficassem inéditas até o festival. Interpretada por Elis Regina, Arrastão foi a vencedora, projetando nacionalmente o compositor, já definido como um dos mais importantes da geração posterior ao surgimento da bossa-nova. Ainda em 1965, apresentou-se ao lado de Nara Leão, do Tamba Trio e do Quinteto Villa-Lobos na boate carioca Zum-Zum, em show dirigido por Aloysio de Oliveira.
Contratado pela TV Record de São Paulo, passou a atuar semanalmente em porogramas dessa emissora em 1966 participou novamente de festivais: no II FMPB apresentou Jogo de Roda (com Rui Guerra) e no L FIC, da TV Globo, Rio de Janeiro, concorreu com Canto Triste (com Vinicius de Moraes), interpretada por Elis Regina e classificada entre as finalistas. Nesse ano, excursionou pela Europa com outros artistas, entre os quais Sylvia Telles e o Salvador Trio, tendo o grupo gravado um disco então na República Federal da Alemanha. No Brasil, em 1967, depois de quatro meses em Paris, onde fez um filme para a televisão e compôs a trilha do filme Valmy, de Jean Chérasse, voltou a participar de festivais, no Brasil, saindo vencedor do III FMPB com Ponteio (com Capinan), interpretada por ele e Marília Medalha. No ano seguinte, saiu o seu terceiro LP pela Philips, destacando o frevo canção No cordão da saideira. Em seguida, compos algumas canções para a peça teatral Marta Saré, de Gianfrancesco Guarnieri que estreou em 1969, no Teatro João Caetano, No Rio de Janeiro. No início de 1969, participou do MIDEM, em Cannes, França. De volta ao Brasil, depois de uma passagem por Nova York e por Los Angeles, E.U.A., em abril do mesmo ano casou-se com Vanda Sá e, partindo em seguida para Los Angeles, onde residiu por dois anos. Aí se dedicou ao estudo sistemático da música, fazendo cursos de orquestracão com Albert Harris e de música para cinema, com Lalo Schiffrin.
Nesse período, excursionou pelo Japão, com Sergio Mendes, que também produziu o LP Lobo, gravado em 1971 em Los Angeles e lançado pela A&M Records. Gravou ainda com Paul Desmond, saxofonista do Dave Brubeck Quartet, o LP From the hot afternoon, com composições suas e de Milton Nascimento. Dentre os discos feitos nos E.U.A., apenas o LP Cantiga de Longe foi editado no Brasil, trazendo a participação de Hermeto Paschoal, Airto Moreira, Claudio Slon e Vanda Sá, que reapareceu como intérprete na canção Agua Verde (de sua autoria). De volta ao Brasil, em 1971, trabalhou pricipalmente como orquestrador e compositor de trilhas musicais. Criou a trilha sonora do filme de Miguel Borges O Barão Otelo no barato dos bilhões, de Miguel Borges. Compôs e realizou orquestracões para a peça teatral Woyzec, Georg Büchner. Fez orquestracões e arranjos para um disco de Marília Medalha e Vinicius de Moraes, e em 1973 lançou o LP Edu Lobo (EMI) com músicas inéditas, inclusive uma missa. Ainda em 1973 trabalhou nas orquestrações das músicas de Calabar, ou O elogio da traição, peca teatral de Chico Buarque e Rui Guerra, algumas das quais foram lançadas em 1974 no LP Chico canta.
Em 1974 e 1975 atuou como orquestrador contratatdo da TV Globo, tendo sido responsável pela trilha musical de 12 programas da série Casos Especiais. Em 1975 compôs, com Vinicius de Moraes, a trilha Sonora do musical Deus lhe Pague, de Joracy Camargo, com adaptação de Millôr Fernandes e lançou em seguida o LP das canções dessa peça pela EMI, com produção de Aloysio de Oliveira.
No ano seguinte, pela Continental, lançou o LP Limite das águas. Em 1977 fez tourné por toda a Alemanha promovendo Limite das Águas, lançado no exterior pela gravadora MPS.
Um ano depois gravou o LP Camaleão, lançado no Brasil e no Japão, onde, pela primeira vez, interpretou, com letra de Ferreira Gullar, O Trenzinho do Caipira de Heitor Villa-Lobos (adaptado e orquestrado por ele e por Dori Caymmi). Em 1979 compôs a trilha sonora do filme Barra Pesada de Reginaldo Farias, ganhando prêmio no Festival de Gramado RS. Em 1980, após lançar o LP Tempo Presente, pela Polygram, escreveu e compos o balé Jogos de Dança para o teatro Guaíra de Curitiba PR, lançado em disco no ano seguinte pela Som Livre. Em 1981, em parceria com Tom Jobim lançou o LP Edu&Tom, Tom&Edu produzido por Aloysio de Oliveira. Em 1983, em parceria com Chico Buarque, compôs trilha sonora para o balé O Grande Circo Místico, adaptação de Naum Alves de Souza do poema homônimo de Jorge de Lima e que daria origem aum LP lançado pela Som Livre com a participacão de Gal Costa, Tom Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tim Maia e Zizi Possi, entre outros. As orquestrações foram feitas, com a colaboração do autor, pelo maestro Chico De Moraes.
A parceria com Chico Buarque se repetiria com O Corsário do Rei, de Augusto Boal, de 1985 e Dança da Meia-Lua, com roteiro de Chico Buarque e Ferreira Gullar, ambos lançados em disco pela Som Livre. Em 1984 escreveu a trilha sonora do filme O Cavalinho Azul, de Eduardo Escorel e Imagens do Inconsciente, de Leon Hirszman. Compôs em 1990 a trilha sonora do programa infantil Rá-Tim-Bum, da TV Cultura de São Paulo, lançado posteriormente em CD pela Eldorado. Este disco ganhou dois prêmios Sharp.
Em 1992 voltou a apresentar espetáculos, obtendo grande repercussão, o que o levou a gravar um novo disco de intérprete: Corrupião, lançado em CD pela gravadora Velas.
Em 1994 recebeu o Prêmio Shell de melhor compositor de música brasileira, pelo conjunto da obra. Lançou em 1995 o CD Meia-Noite, com cordas orquestradas por Cristóvão Bastos, que traz um chôro instrumental em homenagem a Tom Jobim: Perambulando. O disco recebeu o prêmio Sharp como melhor disco de música popular brasileira. Neste ano, foi lançado o CD Songbook Edu Lobo (duplo), bem como o Songbook, livro de partituras manuscritas pelo próprio Edu, ambos pela editora e gravadora Lumiar, de Almir Chediak. Em 1997 compôs a trilha sonora para o filme Guerra de Canudos, de Sergio Resende, cuja canção-tema tinha letra de Cacaso. Neste mesmo ano ano lança pela gravadora BMG o CD Album de Teatro, com canções em parceria com Chico Buarque. Dedica-se ao estudo de programas de música no computador e começa a preparar um novo Songbook, bem mais completo, com aproximadamente 120 músicas, projeto ainda a ser concluído.
Em 2001 retoma a parceria com Chico Buarque, compondo as canções da peça teatral Cambaio, de João Falcão e Adriana Falcão. Em seguida produz o CD homônimo, para a gravadora BMG com a participação de Zizi Possi e Gal Costa dividindo a interpretação das canções com Chico Buarque, com orquestrações de Chico de Moraes. Este disco viria a receber, em 2002 o Grammy Latino de melhor CD de música brasileira.
Ainda em 2001 compôs a trilha sonora, com orquestrações de Nelson Ayres do filme "O Xangô de Baker Street", de Miguel Faria, baseado em livro de Jô Soares. Em seguida viaja para Israel e participa com Nelson Ayres e Jane Duboc de um concerto de música brasileira, (Sounds of Brazil) com a Orquestra Filarmônica de Israel, no dia 15 de maio de 2001 no Frederic R. Mann Auditorium, em Tel-Aviv.

Fonte:
http://www.edulobo.com/biografia.shtml

terça-feira, 22 de julho de 2008

Carta a um jovem poeta - Rilke

Carta a um jovem poeta
(Paris, 17 de fevereiro de 1903 )


Meu estimado senhor:


Recebi sua carta há poucos dias. Quero lhe agradecer a grande e amável confiança que esta representa. Mas pouco mais posso fazer. Não examinarei os seus versos, pois sempre fui alheio a qualquer intenção crítica. Para penetrar uma obra de arte, nada pior do que as palavras da crítica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos infelizes. Nem tudo se pode saber ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que sucede é inexprimível e decorre num espaço que a palavra jamais alcançou. E nada mais difícil de definir do que as obras de arte - seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera.
Após isso, apenas acrescento que os seus versos não revelam uma maneira própria. Possuem, é certo, sinais de personalidade, porém ainda tímidos e ocultos. Senti-o no seu último poema, "Minha Alma". Neste, qualquer coisa peculiar procura achar solução e forma. E em toda a formosa poesia "A Leopardi" se sente uma espécie afinidade com este príncipe, este solitário. Entretanto, as suas poesias não têm existência própria, nem mesmo a última, nem mesmo a que é dedicada a Leopardi. Na sua missiva encontrei a explicação de certas insuficiências que, ao lê-lo, já havia percebido, mas a que não me foi possível dar nome. Indaga-me se os seus versos são bons. Pergunta a mim, depois de Ter perguntado a várias pessoas. Manda-os para as revistas, compara-os a outros versos e alarma se quando certos jornais repelem os sus ensaios poéticos. Doravante (já que me permite aconselhá-lo) peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para o exterior. Eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo - ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: "Morreria, se não me fosse permitido escrever?" Isso, principalmente. Na hora mais tranqüila da noite, faça a si esta pergunta: Sou de fato obrigado a escrever?"Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples "Sou", então construa a sua vida em harmonia com essa necessidade. A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade de sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale de suas tristezas e dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam, da sua fé na beleza. Diga tudo com sinceridade calma e humildade. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua personalidade fortificar-se-á, a sua solidão povoar-se-á, tornando-se, nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores. E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são bons ou não, não tentará conseguir que periódicos se interessem pelos seus trabalhos, porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. Por isso, meu prezado senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só desta maneia encontrará resposta à pergunta: "Devo criar?" De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a Arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua majestade, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. O criador deve ser um mundo para si próprio, tudo encontrar em si e nesse pedaço de natureza com que se identificou. Pode suceder que, depois dessa descida em si mesmo, ao âmago solitário de sim mesmo, tenha de renunciar a ser poeta. (Basta, no meu entender, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo.) Mesmo assim, a introspecção que lhe peço não terá sido inútil. A sua vida, desde aí, encontrará caminhos próprios. Que estes sejam bons, ricos e largos, é que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhá-lo a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente "para fora", do que esperando "de que fora" as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe.
Gostei de encontrar na sua carta o nome do professor Horacek. Dediquei a esse sábio uma grande estima e uma gratidão que já duram anos. Quer transmitir-lhe isso da minha parte? É bondade dele, que muito aprecio, lembrar-se ainda de mim.
Restituo-lhe os versos que me confiou tão amigavelmente e mais uma vez lhe agradeço a cordialidade e a amplitude da sua confiança.
Procurei, nesta reposta sincera, feia o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, na minha qualidade de estranho.

Com toda a dedicação e toda a simpatia.


Rainer Maria Rilke
Poeta alemão / 1875 - 1926
Simbolista

Ferreira Gullar

TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questãod
e vida ou morte -
será arte?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Cartola (1908 - 1980)

Como conheci a Obra de Cartola?
Abaixo segue apenas um breve relato, pois falar sobre Cartola, leva tempo, aliás, muito tempo.

Ao ouvir Cazuza cantando em seu filme a música “O mundo é um moinho”, música que gosto muito por sinal, pesquisei sobre a vida de Cartola.

Descobri que, seu nome era Agenor de Oliveira, nasceu no dia 11 de outubro de 1908, no Rio de Janeiro e por um erro de um escrivão, seu prenome foi grafado Angenor, e como dava muito trabalho para mudar, acabou ficando como Angenor mesmo.

Cartola aos 8 anos de idade, já desfilava em blocos carnavalescos de rua. Aos 11, por problemas financeiros, foi morar com a família no morro de Mangueira. Começou a trabalhar muito cedo. Foi tipógrafo e pedreiro. Aliás, foi na época em que trabalhava em obras que surgiu seu apelido – por causa do chapéu coco que usava durante o serviço para evitar que seu cabelo ficasse sujo de cimento.

Cartola fundou a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, lhe deu nome e as cores verde e rosa (para quem dizia que as cores não combinavam, ele respondia : "Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor, como o amor pode não combinar com a esperança?").

Muito gravado pelos grandes cantores da década de 30, ele desapareceu e somente no final década de 50 foi encontrado pelo cronista Sérgio Porto trabalhando como lavador de carros.

Ele sua esposa Zica fundaram na década de 60 o bar Zicartola no centro do Rio de Janeiro, que foi um pólo irradiador do samba e onde surgiram vários talentos. Somente aos 65 anos conseguiu gravar seu primeiro disco. Seus dois primeiros discosgravados por Marcus Pereira É autor de sambas imortais como O Mundo é um Moinho, As Rosas não Falam.

O mundo é um moinho
Cartola


Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amorPreste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a póPreste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés.



Fonte:
http://samba-choro.com.br/s-c/cartola.html

E minhas lembranças do filme "Música para os olhos" 2006

Rimbaund

ADORMECIDO NO VALE
Tradução: Ferreira Gullar


É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.


Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.


Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.


E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.



A ETERNIDADE
Tradução: Augusto de Campos


De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.


Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.


Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.


De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.


Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.


De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.


Para mais... : http://www.avepalavra.kit.net/poesia/poesianet091.htm

Ouvindo: Madredeus - Haja o Que Houver

Cazuza


Quem me conhece sabe minha aversão a TV. No entanto, apesar da dificuldade "caseira", tenho encontrado alguns programas que tenho gostado. Um foi a homenagem à Cazuza, no Som Brasil que foi exibido dia 27/06/08.
http://sombrasil.globo.com/

Como meus olhos brilham por ele também...



Down em mim
Composição: Frejat/Cazuza


Eu não sei o que o meu corpo abriga

Nestas noites quentes de verão

E nem me importa que mil raios partam

Qualquer sentido vago de razão

Eu ando tão down

Eu ando tão down

Outra vez vou te cantar, vou te gritar

Te rebocar do bar

E as paredes do meu quarto vão assistir comigo

À versão nova de uma velha história

E quando o sol vier socar minha cara

Com certeza você já foi embora

Eu ando tão down

Eu ando tão down

Outra vez vou te esquecer

Pois nestas horas pega mal sofrer

Da privada eu vou dar com a minha cara

De panaca pintada no espelho

E me lembrar, sorrindo, que o banheiro

É a igreja de todos os bêbados

Eu ando tão down

Eu ando tão down

Eu ando tão down

Down... down

Para mais Cazuza...
http://www.cazuza.com.br/?language=pt_BR

Poetas Malditos

Tenho recebido poesias lindas. Pouco entendo de poesia, como eu disse, tenho dificuldade em entender, muitas vezes, a proposta. No entanto há coisas que não se explica. Sente-se. E é o que tem acontecido comigo no que se refere as poesias dos poetas chamados malditos. Devido a minha curiosidade por tudo o que me faz sorrir (mesmo quando não se é para sorrir, quando é para empalidecer) busquei sobre. Escolho pra começar Uma Carniça de Baudelaire.

Cronologia Básica

1821 - 9 de Abril: nasce Charles Baudelaire em Paris;

1832 - Outubro: Baudelaire torna-se interno no Colégio Real de Lyon;

1836 - Chamado ao Estado-Maior de Paris, Aupick interna o enteado no Colégio de Louis-le-Grand;

1837 - Baudelaire obtém o segundo lugar no exame geral de fim de ano, além de conquistar o segundo prêmio num concurso de versos latinos;

1839 - 18 de abril: Expulsão do Colégio Louis-le-Grand por uma ninharia (negou-se a mostrar um bilhete que lhe passara um colega);- 12 de agosto: Baudelaire diploma-se bacharel;- 2 de novembro: Primeira inscrição na Escola de Direito, que jamais freqüentará. Contrai a primeira de suas incontáveis afecções venéreas;

1856 - 30 de dezembro: Contrato entre Baudelaire e a editora Poulet-Malassis e De Broise, à qual o poeta vende os direitos de As Flores do Mal;

1857 - 25 de junho: Lançamento de As Flores do Mal. A coletânea inclui 52 poemas inéditos;- 7 de julho: A direção da Segurança Pública, Órgão do Ministério do Interior, alerta os Tribunais sobre o delito de ultraje à moral pública cometido pelo autor de As Flores do Mal. Dez dias depois, o Tribunal dá a conhecer sua resolução: é instaurada ação judicial contra Baudelaire e seus editores, e ordena a apreensão dos exemplares. No dia 11 de mesmo mês, o poeta escreve para a Poulet-Malassis rogando-lhe esconder "toda a edição";- 20 de agosto: Após ouvir a acusação de Ernest Pinard (o mesmo que conduziu o libelo acusatório contra Madame Bovary) e a defesa de Chaix d'Est-Ange, a 6.ª Vara Correcional condena Baudelaire à multa de 300 francos, seus editores à multa de 100 francos cada um e ordena o expurgo de seis poemas (Lesbos, Mulheres Malditas(Delfina e Hipólita), O Lestes, À; que esta sempre alegre, As jóias, As metamorfoses do vampiro, os chamados "Poemas condenados", incluídos na Marginália (1866) e depois definitivamente incorporados ao texto de As flores do Mal, como se vê a partir da primeira edição póstuma, de 1868);

1860 - 13 de janeiro: Primeira crise cerebral;- 15 de novembro: O Ministro da Instrução Pública concede a Baudelaire uma indenização literária de 200 francos para As Flores do Mal. Estranha Política;

1861 - Março: Baudelaire se diz à beira do suicídio. O que ainda o impede de consumá-lo é o orgulho de não deixar seus negócios em desordem e o desejo de publicar suas obras de crítica;

1863 - 13 de janeiro: Baudelaire cede a Hetzel, por 1.200 francos, os direitos exclusivos de publicação dos Pequenos Poemas em Prosa e de As Flores do Mal¸ que já estavam vendidos a Poulet-Malassis;

1866 - 15 de março: Baudelaire passa uma nova temporada em Namur, na casa dos Rops. Durante umas visita à Igreja de Saint-Loup, o poeta escorrega e cai sobre as lajes. Os distúrbios cerebrais se declaram de forma irreversível. Removem-no para Bruxelas;1866 - 4 de julho: Baudelaire é internado na Casa de Saúde do Dr. Duval, à Rua Dôme, próximo à Étoile. O tratamento hidroterápico proporciona-lhe algumas melhoras. Em seu quarto, ornamentado com uma tela de Manet e uma cópia do retrato da duquesa de Alba, de Goya, ele recebe numerosos amigos;

1867 - 31 de agosto: Morte de Baudelaire, que expira nos braços de sua mãe. Segundo o anúncio fúnebre, o poeta recebeu os últimos sacramentos;1896 - Le tombeau de Charles Baudelaire, com colaboração de 39 escritores, entre os quais Mallarmé.


Uma carniça


(Tradução de Ivan Junqueira.)



Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos

Numa bela manhã radiante:

Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,

Uma carniça repugnante.
As pernas para cima, qual mulher lasciva,

A transpirar miasmas e humores,

Eis que as abria desleixada e repulsiva,

O ventre prenhe de livores.
Ardia o sol naquela pútrida torpeza,

Como a cozê-la em rubra pira

E para ao cêntuplo volver à Natureza

Tudo o que ali ela reunira.
E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça

Como uma flor a se entreabrir.

O fedor era tal que sobre a relva escassa

Chegaste quase a sucumbir.
Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,

Dali saíam negros bandos

De larvas, a escorrer como um líquido grosso

Por entre esses trapos nefandos.
E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,

Ou esguichava a borbulhar,

Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,

Vivesse a se multiplicar.
E esse mundo emitia uma bulha esquisita,

Como vento ou água corrente,

Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita

E à joeira deita novamente.
As formas fluíam como um sonho além da vista,

Um frouxo esboço em agonia,

Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista

Apenas de memória um dia.
Por trás das rochas irrequieta, uma cadela

Em nós fixava o olho zangado,

Aguardando o momento de reaver àquela

Náusea carniça o seu bocado.
- Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida,

Essa medonha corrupção,

Estrela de meus olhos, sol de minha vida,

Tu, meu anjo e minha paixão!
Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza,

Após a benção derradeira,

Quando, sob a erva e as florações da natureza,

Tornares afinal à poeira.
Então, querida, dize à carne que se arruína,

Ao verme que te beija o rosto,

Que eu preservei a forma e a substância divina

De meu amor já decomposto!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dolores Duran

Dolores Duran, nome artístico de Adiléia Silva da Rocha, (Rio de Janeiro, 7 de junho de 1930Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1959) foi uma cantora e compositora brasileira.
Samba-canção ou bossa
Dolores Duran foi uma grande cantora e compositora do gênero
samba-canção ou fossa (surgido na década de 30). Além de Dolores Duran e Maysa Matarazzo, destacam-se Nora Ney e Ângela Maria. O gênero samba-canção, comparado ao bolero, pela exaltação do tema amor-romântico ou pelo sofrimento de um amor não realizado, foi chamado também de dor-de-cotovelo. O samba-canção antecedeu o movimento da bossa nova (surgido ao final da década de 50), com o qual Maysa já foi identificada. Mas este último, herdeiro do jazz norte-americano, representou um refinamento e uma maior leveza nas melodias e interpretações em detrimento do drama e das melodias ressentidas, da dor-de-cotovelo e da melancolia.
Canções de sucessos
A estréia em disco foi em
1952, gravando dois sambas para o Carnaval do ano seguinte: Que bom será (Ailce Chaves, Salvador Miceli e Paulo Marquez) e Já não interessa (Domício Costa e Roberto Faissal). Em 1953, gravou Outono (Billy Blanco) e Lama (Paulo Marquez e Ailce Chaves). Dois anos depois vieram, com o lançamento de Canção da volta (Antonio Maria e Ismael Neto) e Bom querer bem (Fernando Lobo) e Praça Mauá (Billy Blanco), Carioca (Antonio Maria e Ismael Neto). Em 1956 consegue um dos seus maiores sucessos como cantora: Filha de Chico Brito (Chico Anísio).
Foram consagradas também: Por causa de você, Solidão, Não me culpe, A noite do meu bem, Castigo e Fim de caso.




Dolores Duran, o amor, a dor e a música

O Brasil dos anos 50 durante o governo Juscelino Kubistchek vivia um período de luzes e esplendor em todas as áreas e a música popular teve nessa época uma de suas mais brilhantes gerações de artistas, compositores e intérpretes, que modificaram de forma substancial o ritmo evolutivo de nossa canção integrando-a a modernidade da época। Foi nessa ocasião que os programas de auditório lotavam os estúdios da Rádio Nacional do Rio de Janeiro onde se aplaudiam os novos astros como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Emilinha Borba e Marlene dentre outros. Nesse contexto histórico desencadeou-se também o movimento mais renovador de nossa música a Bossa Nova, portanto tínhamos um Brasil múltiplo com os sambas abolerados, e a harmonia e poesia renovadora da Bossa Nova.
Nesse ambiente surge uma estrela que tinha por nome de batismo Adiléia Silva Rocha, nascida no Rio de Janeiro em 7 de junho de 1930 e rebatizada com o nome artístico de Dolores Duran। Em 1940 apresentou-se no programa Calouros em Desfile de Ary Barroso na Rádio Tupi interpretando a canção latina Vereda tropical, talento precoce alcançou o primeiro lugar como jovem intérprete. Disposta a ganhar a vida como artista de rádio participou de inúmeros programas como cantora e atriz e aos 16 anos foi contratada pela Boate Vogue já com o pseudônimo de Dolores Duran sendo em seguida convidada por César de Alencar para se apresentar com atração permanente em seu programa na Rádio Nacional. Aos 22 anos em 1952 gravou seu primeiro disco com as músicas Que bom será de Alice Chaves, Salvador Miceli e Paulo Marques e Já não me interessa de Domício Costa e Roberto Faissal. Continuou lançando discos e em 1954 já conceituada no meio artístico gravou com muito sucesso Canção da volta de Antônio Maria e em 1955 apresentou-se em Punta del Este no Uruguai.
O talento de Dolores Duran, porém não ficaria direcionado apenas para o campo da interpretação, e sim também para o de compositora onde mostrou todo o seu talento em músicas que se eternizaram pela sua beleza। Um dos seus parceiros mais constantes nessa sua fase inicial de compositora foi Tom Jobim com quem compôs Se é por falta de adeus, Estrada do Sol e Por causa de você, esta um clássico de nosso cancioneiro.
Ah, você esta vendo só
Do jeito que eu fiquei e que tudo ficou
Numa tristeza tão grande
Nas coisas mais simples que você tocou
A nossa casa querida
Já estava acostumada guardando você
As flores na janela sorriam, cantavamPor causa de você
Olhe, meu bem, nunca mais
Nos deixe, por favorSomos a vida e o sonho
Nós somos o amor
Entre meu bem, por favor
Não deixe o mundo mal lhe levar outra vez
Me abrace simplesmente, não fale, não lembre
Não chores meu bem

Em 1958 Dolores Duran apresentou-se em Moscou e Paris e de volta ao Brasil em parceria com o pianista José Ribamar lançou as músicas Quem sou eu, Idéias erradas, Pela rua e Se eu tiver। Continuando-se a apresentar em boates e também em televisão compôs sem parceria algumas de suas canções mais famosas como Castigo, Fim de caso, Solidão e A noite de meu bem, sendo esta um dos maiores clássicos românticos da história de nossa música popular.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite de meu bem
Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite de meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite de meu bem
Ah! Eu quero amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite de meu bem
Ah! Como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que quero lhe dar

Apesar do reconhecimento de público e crítica, Dolores Duran tinha uma vida pessoal difícil o que lhe levava a constantes depressões, e foi justamente num desses momentos onde tudo parece irremediavelmente sem sentido que ela veio a falecer depois de uma profunda crise depressiva em sua residência na madrugada do dia 24 de outubro de 1959, por ingestão excessiva de barbitúricos, com apenas 29 anos.
Dolores Duran tornou-se com o passar dos anos uma das mais conceituadas compositoras brasileiras de todos os tempos, num país que não tem tradição de mulheres nesse campo de atividade। Seu nome é referência obrigatória quando se quer conhecer e estudar a vida brasileira na década de 50, os chamados anos dourados, em que ela como uma estrela, brilhou com tanta luz e intensidade, que até hoje seus raios iluminam todos os nossos caminhos embalados nas suas doces e suaves canções.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 13 de agosto de 2002
















quinta-feira, 17 de julho de 2008

O poeta beija tudo

Graças a Deus ainda existem poetas!!!
Mas seria pedir muito que todos pudessem ter um pouco de poeta?
Quem sabe assim viveriamos melhor, amando o próximo como a nós mesmo.

Ahhh como seria bom!!”

Joel.


O poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade...

E diz assim: "É preciso saber olhar..."

E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos...

E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...

E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha...

E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso...

E acha que tudo é importante...

E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim...

E reparou que os homens estavam tristes...

E escreveu uns versos que começam desta maneira: "O segredo é amar..."

Sebastião da Gama

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Companheiro


Depois do conto, me deparei com uma muralha.
Incrível, difícil de acreditar, mas demorei aproximadamente 6 anos para ler esse livro.
Exigiu muita vontade. Cada vez que eu o pegava me prendia na leitura, mas como requer um tempo maior de concentração, devido ao estilo da escrita, não conseguia dar continuidade.
Fui realmente conseguir lê-lo, de uma vez em praticamente uns três dias, quando fui trabalhar num lugar um tanto “estranho” a vista de todos, no Cemitério (não, eu não era sepultadora, era digitadora de óbitos – RS). Talvez o ambiente me levava para dentro do livro. Talvez a solidão estranhamente vivida por mim, tenha me ajudado a entender este livro. Foi um desafio. Venci.
Uma cena diária minha é descrita por Saramago...


“(...) Comeu a omeleta devagar, em pedacinhos geometricamente talhados, fazendo-a render o mais possível, apenas para ocupar o tempo, não por deleite gastronómico. Sobretudo, não queria pensar. O imaginário e metafísico diálogo com o tecto servia-lhe para encobrir a total desorientação do seu espírito, a sensação de pânico que lhe vinha da idéia de que já não teria mais nada para fazer na vida, se, como havia razões para recear, a busca da mulher desconhecida havia terminado. Sentia um nó duro na garganta, como quando lhe ralhavam quando criança e queriam que ele chorasse, e ele resistia, resistia, até que por fim as lágrimas saltavam, como também começaram a saltar agora por fim. Afastou o prato, deixou prender a cabeça sobre os braços cruzados e chorou sem vergonha, ao menos desta vez não havia ninguém ali para se rir dele. Este é um daqueles casos em que os tectos nada podem fazer para ajudar as pessoas aflitas, têm de limitar-se a esperar lá em cima que a tormenta passe, que a alma se desafogue, que o corpo se canse. (...)”

Trecho de Todos os Nomes, de José Saramago.


Sempre ouvindo algo: Noite Severina, com Ney Matogrosso

Sobre Palavras





Andei perdendo palavras por aí. Talvez por falar em excesso elas me faltem agora. As que saíram aos gritos duvido que voltem. Escaparam e deixaram vítimas durante a fuga. Uma pena. Mas em esforço de guerra dizem que perdas são justificáveis. Nunca acreditei muito nisso. Andei perdendo palavras por aí. Talvez por ficar em silêncio elas me sobrem agora. E por serem excesso ocuparam o espaço antes reservado ao agrupamento ordenado delas. O crescimento desordenado de palavras é mais perigoso. Jamais pensei na possibilidade de um motim de palavras.Andei perdendo palavras por aí. Das soltas e guardadas. Algumas entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Outras entupiram narinas e muitas desceram pelos olhos. Ainda ontem me olhei no espelho e vi que engordei. Ando comendo palavras saturadas. Um perigo. Preciso perder peso, perder palavras para reencontrá-las.

Sergio Fonseca

terça-feira, 15 de julho de 2008

A Pessoa Certa

Pois, é!!
Olha eu participando do seu blog.
Outro dia lí o texto abaixo no site A Casa do Bruxo - Portal da Poesia (recomendo), achei interessante e verdadeiro, por isso estou compartilhando com você.
Joel.



A Pessoa certa

Pensando bem, em tudo o que a gente vê, vivencia, ouve e pensa,não existe uma pessoa certa pra gente. Existe uma pessoa que, se você for parar pra pensar é, na verdade, a pessoa errada. Porque a pessoa certa faz tudo certinho. Chega na hora certa, Fala as coisas certas, Faz as coisas certas, Mas nem sempre estamos precisando das coisas certas. Aí é a hora de procurar a pessoa errada. A pessoa errada te faz perder a cabeça Fazer loucuras Perder a hora Morrer de amor A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar Que é pra na hora que vocês se encontrarem A entrega ser muito mais verdadeira A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa Essa pessoa vai te fazer chorar Mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas Essa pessoa vai tirar seu sono Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível Essa pessoa talvez te magoe E depois te enche de mimos pedindo seu perdão Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado Mas vai estar 100% da vida dela esperando você Vai estar o tempo todo pensando em você. A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo Porque a vida não é certa Nada aqui é certo O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo Amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo,conseguindo E só assim é possível chegar àquele momento do dia Em que a gente diz: "Graças à Deus deu tudo certo" Quando na verdade Tudo o que Ele quer É que a gente encontre a pessoa errada Pra que as coisas comecem a realmente funcionar direito pra gente.... Nossa missão: Compreender o universo de cada ser humano, respeitar as diferenças, brindar as descobertas, buscar a evolução.

"Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas"
Maria Clara Oliveira

Saramago...


Conheci Saramago através de um conto, O Conto da Ilha Desconhecida.
Estava vivendo um momento muito novo, de descobertas, quando li esse conto.
Vou postar um trecho que marcou e desde então não esqueci mais:


“(...) Ela segurou as velas, ma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pego, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio.(...) o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa as pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra (...)”

O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago


Ouvindo: Inverno, com Adriana Calcanhoto

Leminski

já me matei faz muito tempo me matei quando o tempo era escasso e o que havia entre o tempo e o espaço era o de sempre nunca mesmo o sempre passo morrer faz bem à vista e ao baço melhora o ritmo do pulso e clareia a alma morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma

A preferida do meu filho de 5 anos...

Construção - Chico Buarque.

Sim, essa é a música preferida (como ele mesmo diz) do meu filho de 5 anos, Gabriel.
Ele muito me surpreende, não pelo gosto, mas pelos comentários. Um dia ele me disse que as músicas dele (músicas infantis) eram alegres. Questionei se as minhas eram tristes. Ele me disse que eram bonitas. Ele soube misturar alegria com tristeza para resultar em beleza.
Já que lembrei disso, resolvi postar hoje um trecho da revista Bravo, edição especial as 100 canções essenciais, onde a 9ª música é Construção. Ah, uma dica, essa música é linda na voz de Mônica Salmaso (ver álbum Mônica Salmaso - Noites de gala, samba na rua, com participação especial Pau Brasil).

"(...) Nascido em 1944, no Rio de Janeiro, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico teve educação esmerada. Como muitos de sua geração, ingressou nas fileiras de esquerda contra o regime militar de 1964. Quando compôs Construção, em 1971, estava no exílio, na Itália, onde vivia com a atriz Marieta severo, com quem se casara em 1966. A música é um marco da faceta de denúncia que caracterizaria parte de sua produção posterior. No lugar do operário que esperava o trem e “alguma coisa mais linda que o mundo”, na canção Pedro Pedreiro (1965), surge o pedreiro sem horizontes e agonizante de Construção. Poema-protesto, símbolo de uma era de crise social no Brasil, mergulhado no paradoxo de um “milagre econômico” que ampliava as desigualdades. Na música, o protagonista é operário de obra que, sem saber que aquele seria o último dia de sua vida, “beijou sua mulher como se fosse a última”, “subiu a construção como e fosse máquina”.
Como os arranha-céus que surgiam na febre de um progresso às avessas, Chico construiu a canção, estruturada em apenas dois acordes, de forma rigorosa: 41 versos, todos terminados em proparoxítonas, todos decassílabos (12 sílabas). A letra obedece a um esquema rígido de dois blocos de estrofes – um antes e outro depois da morte do operário – que alternam, na segunda parte, as últimas palavras dos primeiros versos. Depois da morte do operário, clímax da narrativa, a alternância das palavras causa um efeito de desarticulação, eco da desconstrução do sujeito anônimo que “se acabou no chão feito um pacote flácido”, “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.
Rogério Duprat, que ficou conhecido como o maestro dos tropicalistas, fez o arranjo de Construção em sintonia com a desarticulação proposta pela repetição mecânica dos versos que Chico compôs. Como destaca o jornalista Fernando Barros e Silva no livro Chico Buarque, Duprat “parte do violão para ir instalando a cada estrofe uma nova camada de sonoridades, como andaimes, até chegar à balbúrdia sinfônica e à entropia insuportável no final”.
A mecanicidade dessa balbúrdia ressalta o caráter de objeto que Chico imprime a seu operário anônimo, que vira “pacote” atrapalhando o “tráfego”, o “público” e o “sábado”, proparoxítonas que dão a dimensão urbana, política e social da vida breve de um sujeito de “olhos embotados de cimento e lágrima”, a argamassa de sua existência, segundo sustenta Adélia Bezerra de Meneses em Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque.
O próprio Chico diria que dispôs as proparoxítonas da canção “como se fossem peças de um jogo num tabuleiro”, intercambiáveis. Segundo o autor, a canção é um jogo de palavras com um sujeito humano no meio. (...)”


Ouvindo e Assistindo: Vídeo YouTube – Ciranda da Bailarina e Construção, na voz de Mônica Salmaso com o grupo Pau Brasil

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Solidão, Amor.

O isolamento, numa vida humana, é a exceção. A solidão é a regra. Ninguém pode viver em nosso lugar, nem morrer em nosso lugar, nem sofrer ou amar em nosso lugar. É o que chamo de solidão: nada mais é que outro nome para o esforço de existir. Ninguém virá carregar seu fardo, ninguém.”
Lembrou-me o Sony Rollins “Ninguém se importa. Ninguém.", num documentário que assisti sobre a história do jazz.

**


Assim, a solidão não é a rejeição do outro, ao contrário: aceitar o outro é aceitá-lo como outro (e não como apêndice, um instrumento ou um objeto de si!), e é nisso que o amor, em sua verdade, é solidão. Rilke encontrou as palavras necessárias para dizer esse amor de que necessitamos, e de que somos tão raramente capazes: “Duas solidões que se protegem, que se completam, que se limitam e que se inclinam uma diante da outra...” essa beleza soa verdadeira. O amor não é o contrário da solidão: é a solidão compartilhada, habitada, iluminada – e ás vezes, ensombrecida – pela solidão do outro. O amor é solidão sempre; não que toda solidão seja amante, longe disso, mas porque todo amor é solitário. Ninguém pode amar em nosso lugar, nem em nós, nem como nós. Esse deserto, em torno de si ou do objeto amado, é o próprio amor.


Por André Comte-Sponville, em O Amor a Solidão


Ouvindo: As Vitrines, na voz de Carlos Fernando

sábado, 12 de julho de 2008

Clarice....


Estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda é que não podia ser; ter nascido era cheio de erros a corrigir. Só tinha tempo de crescer. O que eu fazia para todos os lados, com uma falta de graça que mais parecia o resultado de um erro de cálculo. Na minha pressa eu crescia sem saber pra onde.


Estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.


Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como realidade. Sonhei que era dia de Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Mais Caio Fernando Abreu

A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro.
*
Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida। Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu.
*
Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não consegurás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele.
*
Penso, com mágoa, que o relacionamento da gente sempre foi um tanto unilateral, sei lá, não quero ser injusto nem nada - apenas me ferem muito esses teus silêncio.
Ouvindo: Ouro de Tolo, de Raul Seixas

Carta Anônima - Caio Fernando Abreu

Esse foi o primeiro conto inteiro que li do Caio Fernando Abreu.
Depois foi Dama da Noite e Sem Ana, Blues, que irei postar depois.

Carta Anônima

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.
Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.
Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

Ouvindo: Wish You Were Here, com Radiohead.

Um pouco de Caio Fernando Abreu...

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."

"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."

terça-feira, 1 de julho de 2008

Quem não gosta de um pouco de drama?

Nunca (Lupicínio Rodrigues)

Nunca
Nem que o mundo caia sobre mim
Nem se
Deus mandar
Nem mesmo assim
As pazes contigo eu farei
Nunca
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei
Saudade
Diga a esse moço por favor
Como foi sincero o meu amor
Quanto eu te adorei
Tempos atrás
Saudade
Não se esqueça também de dizer
Que é você quem me faz adormecer
Pra que eu viva em paz

Não. Não faço nenhuma declaração pelo blog. É apenas uma letra que me mostraram hoje. O grifado? Um lembrete a mim mesma.

Idiotas: São os que se julgam donos da verdade e se justificam e vitimizam pela podridão do mundo. Valores furados, tortos.


Uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, inválido, ou falho na capacidade de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso. Reconhecer as falácias é por vezes difícil. Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica ou emotiva, mas não validade lógica. É importante conhecer os tipos de falácia para evitar armadilhas lógicas na própria argumentação e para analisar a argumentação alheia.


Argumentum ad ignorantiam (Argumento da Ignorância): Ocorre quando algo é considerado verdadeiro simplesmente porque não foi provado que é falso (ou provar que algo é falso por não haver provas de que seja verdade). Note que é diferente do princípio científico de se considerar falso até que seja provado que é verdadeiro.


Ex: "Existe vida em outro planeta, pois nunca provaram o contrário"