terça-feira, 15 de julho de 2008

A preferida do meu filho de 5 anos...

Construção - Chico Buarque.

Sim, essa é a música preferida (como ele mesmo diz) do meu filho de 5 anos, Gabriel.
Ele muito me surpreende, não pelo gosto, mas pelos comentários. Um dia ele me disse que as músicas dele (músicas infantis) eram alegres. Questionei se as minhas eram tristes. Ele me disse que eram bonitas. Ele soube misturar alegria com tristeza para resultar em beleza.
Já que lembrei disso, resolvi postar hoje um trecho da revista Bravo, edição especial as 100 canções essenciais, onde a 9ª música é Construção. Ah, uma dica, essa música é linda na voz de Mônica Salmaso (ver álbum Mônica Salmaso - Noites de gala, samba na rua, com participação especial Pau Brasil).

"(...) Nascido em 1944, no Rio de Janeiro, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico teve educação esmerada. Como muitos de sua geração, ingressou nas fileiras de esquerda contra o regime militar de 1964. Quando compôs Construção, em 1971, estava no exílio, na Itália, onde vivia com a atriz Marieta severo, com quem se casara em 1966. A música é um marco da faceta de denúncia que caracterizaria parte de sua produção posterior. No lugar do operário que esperava o trem e “alguma coisa mais linda que o mundo”, na canção Pedro Pedreiro (1965), surge o pedreiro sem horizontes e agonizante de Construção. Poema-protesto, símbolo de uma era de crise social no Brasil, mergulhado no paradoxo de um “milagre econômico” que ampliava as desigualdades. Na música, o protagonista é operário de obra que, sem saber que aquele seria o último dia de sua vida, “beijou sua mulher como se fosse a última”, “subiu a construção como e fosse máquina”.
Como os arranha-céus que surgiam na febre de um progresso às avessas, Chico construiu a canção, estruturada em apenas dois acordes, de forma rigorosa: 41 versos, todos terminados em proparoxítonas, todos decassílabos (12 sílabas). A letra obedece a um esquema rígido de dois blocos de estrofes – um antes e outro depois da morte do operário – que alternam, na segunda parte, as últimas palavras dos primeiros versos. Depois da morte do operário, clímax da narrativa, a alternância das palavras causa um efeito de desarticulação, eco da desconstrução do sujeito anônimo que “se acabou no chão feito um pacote flácido”, “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.
Rogério Duprat, que ficou conhecido como o maestro dos tropicalistas, fez o arranjo de Construção em sintonia com a desarticulação proposta pela repetição mecânica dos versos que Chico compôs. Como destaca o jornalista Fernando Barros e Silva no livro Chico Buarque, Duprat “parte do violão para ir instalando a cada estrofe uma nova camada de sonoridades, como andaimes, até chegar à balbúrdia sinfônica e à entropia insuportável no final”.
A mecanicidade dessa balbúrdia ressalta o caráter de objeto que Chico imprime a seu operário anônimo, que vira “pacote” atrapalhando o “tráfego”, o “público” e o “sábado”, proparoxítonas que dão a dimensão urbana, política e social da vida breve de um sujeito de “olhos embotados de cimento e lágrima”, a argamassa de sua existência, segundo sustenta Adélia Bezerra de Meneses em Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque.
O próprio Chico diria que dispôs as proparoxítonas da canção “como se fossem peças de um jogo num tabuleiro”, intercambiáveis. Segundo o autor, a canção é um jogo de palavras com um sujeito humano no meio. (...)”


Ouvindo e Assistindo: Vídeo YouTube – Ciranda da Bailarina e Construção, na voz de Mônica Salmaso com o grupo Pau Brasil

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