quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

"Nunca deixe que ninguém diga que você não pode fazer uma coisa. Se você quer alguma coisa, corre atrás." - A Procura da Felicidade

Inicio das aulas sempre é complicado. Não sabemos o que vem pela frente.  Professores legais, sérios, brincalhões. Apresentações. Falar, calar. Enfim.
Estou há muitos anos fora do ambiente de estudo continuado. Fiz cursos curtos nesse tempo, cursos sem muitos vínculos. O mais longo foi o técnico. Porém fiz com meu noivo, o que fez que a distância das pessoas fosse mantida. Pouco contato com os professores – eram poucos o que realmente eram professores por amor, mais precisamente somente o Edu; o resto estava em missa de corpo presente. Acho que por isso minha insegurança foi imensa. 
O hiato da última vez que me sentei em uma cadeira de escola sozinha e terça-feira.
A princípio quis ir embora. Olhava ao redor e eu estava fora do ninho. O que eu fazia ali no meio de tantos jovens? Senti-me mal. Como sempre me sinto em locais que não conheço as pessoas. Mas pensei “Bola pra frente, você já pagou a matrícula!”.
Ontem fui relutante, não queria ir. Senti vergonha da minha idade e opção. Senti-me uma boba, ingênua, ridícula. Mas fui.
E a professora perguntou por que tínhamos escolhido essa instituição e depois o qual era nossa expectativa para o final do curso. E ouvindo os outros alunos, a própria professora, comecei a pensar/lembrar o porquê disso tudo. Tanta coisa veio em minha cabeça que sei que escrevi tudo bagunçado. 
Mas nesse momento sorri e me acalmei; e aquela angustia que eu estava sentindo foi embora.

Aos 33 anos, atuando na área de engenharia civil há 6 anos consecutivos, com cursos voltados á área, tendo conquistado meu espaço, confiança dos profissionais com quem trabalho e já trabalhei, confiando na minha capacidade de exercer com excelência o que faço e tendo total capacidade pra evoluir dentro dessa carreira, porque diacho eu estou numa sala de licenciatura em química numa faculdade onde a faixa etária é de uma média de 20 anos?

Quando estava no colegial e fui fazer cursinho (que meu irmão pagou com muito sacrifício) estava decidida a fazer Química, bacharel. Adorava a ideia de me ver dentro de um laboratório. Adorava as aulas de orgânica. Estudava em escola pública e por mais que minha professora fosse ótima, não tínhamos recursos para entender bem pra que tudo aquilo servia. Não tinha laboratório. Na verdade fui entrar num laboratório pras aulas de tecnologia dos materiais, no curso de edificações, mas nem sequer cheguei perto de algo. Não sei de verdade como é estar num laboratório. Mas era o que eu queria. Infelizmente eu tinha que buscar uma faculdade pública naquela época, e tirando a USP, as outras universidades eram fora de São Paulo.
Quando falei em casa que prestaria pra Química houve um terremoto, rs. “Não é profissão para mulher, mulher engravida e fica sem emprego” - incrível, mas ouvi isso sim. “Não é seu perfil. Você é da área de humanas, você é comunicativa (na época eu era) você tem que fazer Relações Públicas ou a profissão do momento, Turismo”. Opa, turismo? Eu? Hoje percebo que todos os argumentos falhos que me deram foram por medo da filha/irmã caçula morar longe de casa e de qualquer irmão (meu irmão morava em Bauru, estudava  na UNESP, ele queria que eu escolhesse um curso que tivesse na mesma cidade, e no meu caso não era). Eles realmente acreditavam que eu não teria nenhuma capacidade para lidar com números (acho que porque não sei até hoje trabalhar com frações e tenho dificuldade em divisões). Entendo a preocupação deles. Hoje sou mãe. O medo da distancia e de não poderem me sustentar (eu já trabalhava, mas não dava pra manter nem meu almoço). O medo da minha frustração por ser tão nítido que eu tinha habilidade (competência?) pra números.
Com isso me boicotei. Prestei Relações Públicas na UNESP e não passei por causa de geografia. Prestei turismo na USP  e na primeira prova da primeira fase (naquela época era diferente de hoje)só entrei porque minha mãe e meu primo me levaram até a sala da prova (pasmem), já na segunda não tinha nenhuma supervisão e simplesmente não apareci, fui trabalhar sendo que eu nem trabalhava aos finais de semana(ok, ninguém da minha família sabia até agora, sorry!).
Depois disso comecei a trabalhar na livraria cultura e comecei a ter um salário mais seguro. Voltei por minha conta dessa vez para o cursinho. No entanto o cansaço e a falta de confiança me fizeram parar após 6 meses e me matricular numa UNI da vida e fazer Administração. Que porre! Mesmo sendo operadora de caixa aquele curso me parecia mais inútil naquela altura que o Caminho Suave. Após 2 anos de curso (fazendo até que direitinho – ou não) engravidei. Minha salvação! Parei a faculdade. Mudei de emprego.
Dai pra frente à rotina e prioridades mudaram. Não importava o que eu queria, eu tinha que trabalhar e sustentar meu pequeno. Mesmo passando por diversas áreas, me encontrei nas livrarias. Tenho paixão por livros, pelo ambiente que ele reproduz. Foi a única área que tive orgulho de ser elogiada como profissional. Eles viam um brilho nos meus olhos diferente. Mas o salário era baixo e a carga horária era puxada.
Foi quando recebi um convite para trabalhar num escritório de engenharia. Confesso que fui a contragosto. Não queria. Mas o salário me levou. Não contente, continuei ainda por 6 meses trabalhando aos finais de semana na livraria. Era vendedora agora. A sensação de conversar e explicar algo para as pessoas era algo indescritível para mim. Mas claro, não dava pra trabalhar assim, todos os dias da semana. Abandonei a livraria. Um nó na garganta.
Na empresa de engenharia percebi que aquilo não era bicho de 7 cabeças pra mim. Cálculos, projetos, sistema de qualidade, coordenar equipes, AutoCAD – comecei já fazendo curso. Usei minhas habilidades administrativas para agilizar os processos e com isso criei tempo para 'curiá' a área técnica. Comecei a me envolver e a gostar. Nesse período conheci meu companheiro e o levei pra empresa. Comecei a fazer mais cursos, dessa vez em sua companhia. Desenho técnico, terraplanagem, AutoCAD 3D, técnico em edificações, projeto e calculo de estruturas metálicas. Ele resgatou um sonho de infância e saiu do pensamento do marketing e foi pra engenharia com muita vontade. Estudamos e trabalhamos juntos até abril de 2013. Mudei de empresa (recebi um convite de uma engenharia com quem eu tinha trabalhado antes para um novo desafio na engenharia). Por questões pessoais não iniciei a faculdade, ele (meu Godinho) começou sozinho. E comecei a repensar tudo em minha vida. Mesmo gostando de engenharia meu pensamento estava em lecionar (isso começou lá na livraria), me formaria em engenharia, mas queria dar aula na área. Fiquei insatisfeita comigo – e com a engenharia do nosso país também,  que foi o determinante para meu insight.
Nessa insatisfação, tristeza e desanimo comecei a pensar seriamente em tudo o que vivi e o eu queria quando era mais nova. Olhava pro meu filho falando que quer ser médico, mas odeia ciências. E lembrei-me da química. Deu frio na barriga.
Conversei longamente com meu incrível companheiro. E o que ouvi? “Vai lá menina, você será a melhor química do mundo”. Isso inflou em meu peito. Pensei que ele falaria que eu era louca. Química? Aula? Ele odeia tudo isso. Mas não, me jogou no vestibular e me colocou contra a parede “Ou você segue seu sonho pra ficar comigo, ou vou embora!” – claro que ele não disse isso, mas seu apoio tão de imediato, sem pestanejar me deu uma autoconfiança que nunca tive e fui. 
Minha mãe nem titubeou, disse “Vai, faça o que você quer fazer, aproveita enquanto estou aqui e posso te ajudar com o seu filho. Não conte a ninguém até chegar lá e fazer sua matrícula. Seja feliz!”.
Minha irmã deu pulos quando falei (vi pelo whatsapp, rs). Apoio total.

Largar tudo, mudar tudo, começar do zero.

Ao decidir que eu faria Química, nos 45 do segundo tempo, algo era muito certo, tinha que ser na melhor instituição (ou numa das). Pesquisei muito sobre o curso, instituições, mercado de trabalho. E devido à qualidade de ensino, profissionais locados no mercado, desenvolvimento dos alunos e experiência na área química, não restou dúvidas que essa instituição que é referencia seria minha escolha. Ao dar o passo para virar minha vida de cabeça pra baixo tenho que fazer valer a pena. Sempre defendi que o aluno faz a instituição, mas que a instituição teria que oferecer o máximo ao aluno. Acredito que lá encontrarei isso, base e incentivo para me formar com qualidade. Acredito que essa instituição irá me abrir a cabeça e me ajudar a superar essa dificuldade que tenho em assimilar informações para longo prazo, a essa timidez que se torna ridícula. Acredito que essa instituição pode fazer eu me ver como realmente sou.

Ao final desse caminho minha expectativa é ter absorvido o máximo de informação para poder dividir com outras cabeças sonhadoras. É estar preparada para ajudar os futuros químicos, físicos, biólogos, matemáticos, professores, engenheiros, guias turísticos, médicos e o que quer que seja, a acreditarem em si, a buscarem seus sonhos.
Minha visão é que com o estudo se acaba com fome, miséria, doenças, intrigas, corrupção e todo qualquer tipo de mal que vemos na sociedade. A Química é vida, é tudo o que temos e somos. E eu sou uma sonhadora. Então juntei.

Quando eu chegar lá, voltarei pra contar como foi.


No fim não fiquei lá sentada porque paguei a matricula. Fiquei porque escolhi ser feliz.

Obrigada por me fazer refletir sobre algo tão simples que não consegui te responder na folha que entreguei.

A todos, uma boa volta ás aulas!


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