Inicio das aulas sempre é
complicado. Não sabemos o que vem pela frente. Professores legais, sérios, brincalhões.
Apresentações. Falar, calar. Enfim.
Estou há muitos anos fora do
ambiente de estudo continuado. Fiz cursos curtos nesse tempo, cursos sem muitos
vínculos. O mais longo foi o técnico. Porém fiz com meu noivo, o que fez que a
distância das pessoas fosse mantida. Pouco contato com os professores – eram poucos o que
realmente eram professores por amor, mais precisamente somente o Edu; o resto estava em
missa de corpo presente. Acho que por isso minha insegurança foi imensa.
O hiato
da última vez que me sentei em uma cadeira de escola sozinha e terça-feira.
A princípio quis ir embora.
Olhava ao redor e eu estava fora do ninho. O que eu fazia ali no meio de tantos
jovens? Senti-me mal. Como sempre me sinto em locais que não conheço as
pessoas. Mas pensei “Bola pra frente, você já pagou a matrícula!”.
Ontem fui relutante, não queria
ir. Senti vergonha da minha idade e opção. Senti-me uma boba, ingênua, ridícula.
Mas fui.
E a professora perguntou por que tínhamos
escolhido essa instituição e depois o qual era nossa expectativa para o final
do curso. E ouvindo os outros alunos, a própria professora, comecei a
pensar/lembrar o porquê disso tudo. Tanta coisa veio em minha cabeça que sei
que escrevi tudo bagunçado.
Mas nesse momento sorri e me acalmei; e aquela
angustia que eu estava sentindo foi embora.
Aos 33 anos, atuando na área de engenharia civil há 6 anos
consecutivos, com cursos voltados á área, tendo conquistado meu espaço,
confiança dos profissionais com quem trabalho e já trabalhei, confiando na
minha capacidade de exercer com excelência o que faço e tendo total capacidade
pra evoluir dentro dessa carreira, porque diacho eu estou numa sala de
licenciatura em química numa faculdade onde a faixa etária é de uma média de 20
anos?
Quando estava no colegial e fui fazer cursinho (que meu irmão pagou com
muito sacrifício) estava decidida a fazer Química, bacharel. Adorava a ideia de
me ver dentro de um laboratório. Adorava as aulas de orgânica. Estudava em escola pública e por mais que minha professora fosse ótima, não tínhamos recursos para
entender bem pra que tudo aquilo servia. Não tinha laboratório. Na verdade fui
entrar num laboratório pras aulas de tecnologia dos materiais, no curso de edificações,
mas nem sequer cheguei perto de algo. Não sei de verdade como é estar num
laboratório. Mas era o que eu queria. Infelizmente eu tinha que buscar uma faculdade
pública naquela época, e tirando a USP, as outras universidades eram fora de
São Paulo.
Quando falei em casa que prestaria pra Química houve um terremoto, rs. “Não
é profissão para mulher, mulher engravida e fica sem emprego” - incrível, mas
ouvi isso sim. “Não é seu perfil. Você é da área de humanas, você é
comunicativa (na época eu era) você tem que fazer Relações Públicas ou a
profissão do momento, Turismo”. Opa, turismo? Eu? Hoje percebo que todos os
argumentos falhos que me deram foram por medo da filha/irmã caçula morar longe de
casa e de qualquer irmão (meu irmão morava em Bauru, estudava na UNESP, ele queria que eu escolhesse um
curso que tivesse na mesma cidade, e no meu caso não era). Eles realmente
acreditavam que eu não teria nenhuma capacidade para lidar com números (acho
que porque não sei até hoje trabalhar com frações e tenho dificuldade em
divisões). Entendo a preocupação deles. Hoje sou mãe. O medo da distancia e de
não poderem me sustentar (eu já trabalhava, mas não dava pra manter nem meu
almoço). O medo da minha frustração por ser tão nítido que eu tinha habilidade
(competência?) pra números.
Com isso me boicotei. Prestei Relações Públicas na UNESP e não passei
por causa de geografia. Prestei turismo na USP e na primeira prova da primeira fase (naquela
época era diferente de hoje)só entrei porque minha mãe e meu primo me levaram
até a sala da prova (pasmem), já na segunda não tinha nenhuma supervisão e
simplesmente não apareci, fui trabalhar sendo que eu nem trabalhava aos finais
de semana(ok, ninguém da minha família sabia até agora, sorry!).
Depois disso comecei a trabalhar na livraria cultura e comecei a ter um
salário mais seguro. Voltei por minha conta dessa vez para o cursinho. No
entanto o cansaço e a falta de confiança me fizeram parar após 6 meses e me
matricular numa UNI da vida e fazer Administração. Que porre! Mesmo sendo
operadora de caixa aquele curso me parecia mais inútil naquela altura que o
Caminho Suave. Após 2 anos de curso (fazendo até que direitinho – ou não) engravidei.
Minha salvação! Parei a faculdade. Mudei de emprego.
Dai pra frente à rotina e prioridades mudaram. Não importava o que eu
queria, eu tinha que trabalhar e sustentar meu pequeno. Mesmo passando por
diversas áreas, me encontrei nas livrarias. Tenho paixão por livros, pelo
ambiente que ele reproduz. Foi a única área que tive orgulho de ser elogiada
como profissional. Eles viam um brilho nos meus olhos diferente. Mas o salário
era baixo e a carga horária era puxada.
Foi quando recebi um convite para trabalhar num escritório de engenharia.
Confesso que fui a contragosto. Não queria. Mas o salário me levou. Não
contente, continuei ainda por 6 meses trabalhando aos finais de semana na
livraria. Era vendedora agora. A sensação de conversar e explicar algo para as
pessoas era algo indescritível para mim. Mas claro, não dava pra trabalhar
assim, todos os dias da semana. Abandonei a livraria. Um nó na garganta.
Na empresa de engenharia percebi que aquilo não era bicho de 7 cabeças
pra mim. Cálculos, projetos, sistema de qualidade, coordenar equipes, AutoCAD –
comecei já fazendo curso. Usei minhas habilidades administrativas para agilizar
os processos e com isso criei tempo para 'curiá' a área técnica. Comecei a me
envolver e a gostar. Nesse período conheci meu companheiro e o levei pra
empresa. Comecei a fazer mais cursos, dessa vez em sua companhia. Desenho
técnico, terraplanagem, AutoCAD 3D, técnico em edificações, projeto e calculo
de estruturas metálicas. Ele resgatou um sonho de infância e saiu do pensamento
do marketing e foi pra engenharia com muita vontade. Estudamos e trabalhamos
juntos até abril de 2013. Mudei de empresa (recebi um convite de uma engenharia com quem eu tinha trabalhado antes para um novo desafio na engenharia). Por questões
pessoais não iniciei a faculdade, ele (meu Godinho) começou sozinho. E comecei a repensar
tudo em minha vida. Mesmo gostando de engenharia meu pensamento estava em
lecionar (isso começou lá na livraria), me formaria em engenharia, mas queria
dar aula na área. Fiquei insatisfeita comigo – e com a engenharia do nosso país
também, que foi o determinante para meu
insight.
Nessa insatisfação, tristeza e desanimo comecei a pensar seriamente em
tudo o que vivi e o eu queria quando era mais nova. Olhava pro meu filho
falando que quer ser médico, mas odeia ciências. E lembrei-me da química. Deu
frio na barriga.
Conversei longamente com meu incrível companheiro. E o que ouvi? “Vai
lá menina, você será a melhor química do mundo”. Isso inflou em meu peito.
Pensei que ele falaria que eu era louca. Química? Aula? Ele odeia tudo isso.
Mas não, me jogou no vestibular e me colocou contra a parede “Ou você segue seu
sonho pra ficar comigo, ou vou embora!” – claro que ele não disse isso, mas seu
apoio tão de imediato, sem pestanejar me deu uma autoconfiança que nunca tive e
fui.
Minha mãe nem titubeou, disse “Vai, faça o que você quer fazer,
aproveita enquanto estou aqui e posso te ajudar com o seu filho. Não conte a
ninguém até chegar lá e fazer sua matrícula. Seja feliz!”.
Minha irmã deu pulos quando falei (vi pelo whatsapp, rs). Apoio total.
Largar tudo, mudar tudo, começar do zero.
Ao decidir que eu faria Química, nos 45 do segundo tempo, algo era
muito certo, tinha que ser na melhor instituição (ou numa das). Pesquisei muito
sobre o curso, instituições, mercado de trabalho. E devido à qualidade de
ensino, profissionais locados no mercado, desenvolvimento dos alunos e experiência
na área química, não restou dúvidas que essa instituição que é referencia seria
minha escolha. Ao dar o passo para virar minha vida de cabeça pra baixo tenho
que fazer valer a pena. Sempre defendi que o aluno faz a instituição, mas que a
instituição teria que oferecer o máximo ao aluno. Acredito que lá encontrarei
isso, base e incentivo para me formar com qualidade. Acredito que essa
instituição irá me abrir a cabeça e me ajudar a superar essa dificuldade que
tenho em assimilar informações para longo prazo, a essa timidez que se torna ridícula.
Acredito que essa instituição pode fazer eu me ver como realmente sou.
Ao final desse caminho minha expectativa é ter absorvido o máximo de
informação para poder dividir com outras cabeças sonhadoras. É estar preparada
para ajudar os futuros químicos, físicos, biólogos, matemáticos, professores,
engenheiros, guias turísticos, médicos e o que quer que seja, a acreditarem em
si, a buscarem seus sonhos.
Minha visão é que com o estudo se acaba com fome, miséria, doenças,
intrigas, corrupção e todo qualquer tipo de mal que vemos na sociedade. A
Química é vida, é tudo o que temos e somos. E eu sou uma sonhadora. Então juntei.
Quando eu chegar lá, voltarei pra contar como foi.
No fim não fiquei lá sentada porque paguei a matricula. Fiquei porque escolhi ser feliz.
Obrigada por me fazer refletir sobre algo tão simples que não consegui te responder na folha que entreguei.
A todos, uma boa volta ás aulas!

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