quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Amizade, de Rubem Alves - Para Soninha


Há alguns anos dividi esse texto com uma grande amiga. Hoje não posso relembrar esse texto junto a ela, então resolvi dividir/apresentar a sua filha, Juliana.

Em memória de Sonia Benson.



A Amizade 
(Rubem Alves, do livro O Retorno e Terno)

Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo
que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma
intensidade incomum, da coisa rara que é a
amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que
a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da
natureza, as delícias da boa comida e da bebida
perdem o gosto e ficam meio tristes quando não
temos um amigo com quem compartilhá-las.
Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida
pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma
luta contra a solidão...
Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe,
que li quando era jovem, e do qual nunca me
esqueci. Romain Rolland descreve a primeira
experiência com a amizade do seu herói
adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos
curtos anos de sua vida. Mas o que
experimentava naquele momento era diferente
de tudo o que já sentira antes. O encontro
acontecera de repente, mas era como se já
tivessem sido amigos a vida inteira.
A experiência da amizade parece ter suas raízes
fora do tempo, na eternidade. Um amigo é
alguém com quem estivemos desde sempre. Pela
primeira vez, estando com alguém, não sentia
necessidade de falar. Bastava a alegria de
estarem juntos, um ao lado do outro.
"Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu
coração cantava 'Tenho um amigo, tenho um
amigo!' Nada via. Nada ouvia. Não pensava em
mais nada. Estava morto de sono e adormeceu
apenas deitou-se. Mas durante a noite foi
acordado duas ou três vezes, como que por uma
idéia fixa. Repetia para si mesmo: 'Tenho um
amigo', e tornava a adormecer."
Jean-Christophe compreendera a essência da
amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja
companhia não é preciso falar. Você tem aqui um
teste para saber quantos amigos você tem. Se o
silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se
quando o assunto foge você se põe a procurar
palavras para encher o vazio e manter a conversa
animada, então a pessoa com quem você está
não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja
presença procuramos não por causa daquilo que
se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar
ou transar. Até que tudo isso pode acontecer.
Mas a diferença está em que, quando a pessoa
não é amiga, terminado o alegre e animado
programa, vêm o silêncio e o vazio — que são
insuportáveis. Nesse momento o outro se
transforma num incômodo que entulha o espaço
e cuja despedida se espera com ansiedade.
Com o amigo é diferente. Não é preciso falar.
Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do
outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz
alegria independentemente do que se faça ou
diga. A amizade anda por caminhos que não
passam pelos programas.
Uma estória oriental conta de uma árvore
solitária que se via no alto da montanha. Não
tinha sido sempre assim. Em tempos passados a
montanha estivera coberta de árvores
maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores
cortaram e venderam. Mas aquela árvore era
torta, não podia ser transformada em tábuas.
Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a
deixaram lá. Depois vieram os caçadores de
essências em busca de madeiras perfumadas.
Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi
desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu.
Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes
se assentam sob a sua sombra e descansam.
Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua
inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas
não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel
presença silenciosa torna a nossa solidão uma
experiência de comunhão. Diante do amigo
sabemos que não estamos sós. E alegria maior
não pode existir.

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