Tenho recebido poesias lindas. Pouco entendo de poesia, como eu disse, tenho dificuldade em entender, muitas vezes, a proposta. No entanto há coisas que não se explica. Sente-se. E é o que tem acontecido comigo no que se refere as poesias dos poetas chamados malditos. Devido a minha curiosidade por tudo o que me faz sorrir (mesmo quando não se é para sorrir, quando é para empalidecer) busquei sobre. Escolho pra começar Uma Carniça de Baudelaire.
Cronologia Básica
1821 - 9 de Abril: nasce Charles Baudelaire em Paris;
1832 - Outubro: Baudelaire torna-se interno no Colégio Real de Lyon;
1836 - Chamado ao Estado-Maior de Paris, Aupick interna o enteado no Colégio de Louis-le-Grand;
1837 - Baudelaire obtém o segundo lugar no exame geral de fim de ano, além de conquistar o segundo prêmio num concurso de versos latinos;
1839 - 18 de abril: Expulsão do Colégio Louis-le-Grand por uma ninharia (negou-se a mostrar um bilhete que lhe passara um colega);- 12 de agosto: Baudelaire diploma-se bacharel;- 2 de novembro: Primeira inscrição na Escola de Direito, que jamais freqüentará. Contrai a primeira de suas incontáveis afecções venéreas;
1856 - 30 de dezembro: Contrato entre Baudelaire e a editora Poulet-Malassis e De Broise, à qual o poeta vende os direitos de As Flores do Mal;
1857 - 25 de junho: Lançamento de As Flores do Mal. A coletânea inclui 52 poemas inéditos;- 7 de julho: A direção da Segurança Pública, Órgão do Ministério do Interior, alerta os Tribunais sobre o delito de ultraje à moral pública cometido pelo autor de As Flores do Mal. Dez dias depois, o Tribunal dá a conhecer sua resolução: é instaurada ação judicial contra Baudelaire e seus editores, e ordena a apreensão dos exemplares. No dia 11 de mesmo mês, o poeta escreve para a Poulet-Malassis rogando-lhe esconder "toda a edição";- 20 de agosto: Após ouvir a acusação de Ernest Pinard (o mesmo que conduziu o libelo acusatório contra Madame Bovary) e a defesa de Chaix d'Est-Ange, a 6.ª Vara Correcional condena Baudelaire à multa de 300 francos, seus editores à multa de 100 francos cada um e ordena o expurgo de seis poemas (Lesbos, Mulheres Malditas(Delfina e Hipólita), O Lestes, À; que esta sempre alegre, As jóias, As metamorfoses do vampiro, os chamados "Poemas condenados", incluídos na Marginália (1866) e depois definitivamente incorporados ao texto de As flores do Mal, como se vê a partir da primeira edição póstuma, de 1868);
1860 - 13 de janeiro: Primeira crise cerebral;- 15 de novembro: O Ministro da Instrução Pública concede a Baudelaire uma indenização literária de 200 francos para As Flores do Mal. Estranha Política;
1861 - Março: Baudelaire se diz à beira do suicídio. O que ainda o impede de consumá-lo é o orgulho de não deixar seus negócios em desordem e o desejo de publicar suas obras de crítica;
1863 - 13 de janeiro: Baudelaire cede a Hetzel, por 1.200 francos, os direitos exclusivos de publicação dos Pequenos Poemas em Prosa e de As Flores do Mal¸ que já estavam vendidos a Poulet-Malassis;
1866 - 15 de março: Baudelaire passa uma nova temporada em Namur, na casa dos Rops. Durante umas visita à Igreja de Saint-Loup, o poeta escorrega e cai sobre as lajes. Os distúrbios cerebrais se declaram de forma irreversível. Removem-no para Bruxelas;1866 - 4 de julho: Baudelaire é internado na Casa de Saúde do Dr. Duval, à Rua Dôme, próximo à Étoile. O tratamento hidroterápico proporciona-lhe algumas melhoras. Em seu quarto, ornamentado com uma tela de Manet e uma cópia do retrato da duquesa de Alba, de Goya, ele recebe numerosos amigos;
1867 - 31 de agosto: Morte de Baudelaire, que expira nos braços de sua mãe. Segundo o anúncio fúnebre, o poeta recebeu os últimos sacramentos;1896 - Le tombeau de Charles Baudelaire, com colaboração de 39 escritores, entre os quais Mallarmé.
Uma carniça
(Tradução de Ivan Junqueira.)
Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.
As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar miasmas e humores,
Eis que as abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores.
Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para ao cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira.
E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.
Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.
E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Ou esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar.
E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deita novamente.
As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memória um dia.
Por trás das rochas irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Náusea carniça o seu bocado.
- Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida,
Essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol de minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão!
Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a benção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira.
Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto!
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