segunda-feira, 21 de julho de 2008

Poetas Malditos

Tenho recebido poesias lindas. Pouco entendo de poesia, como eu disse, tenho dificuldade em entender, muitas vezes, a proposta. No entanto há coisas que não se explica. Sente-se. E é o que tem acontecido comigo no que se refere as poesias dos poetas chamados malditos. Devido a minha curiosidade por tudo o que me faz sorrir (mesmo quando não se é para sorrir, quando é para empalidecer) busquei sobre. Escolho pra começar Uma Carniça de Baudelaire.

Cronologia Básica

1821 - 9 de Abril: nasce Charles Baudelaire em Paris;

1832 - Outubro: Baudelaire torna-se interno no Colégio Real de Lyon;

1836 - Chamado ao Estado-Maior de Paris, Aupick interna o enteado no Colégio de Louis-le-Grand;

1837 - Baudelaire obtém o segundo lugar no exame geral de fim de ano, além de conquistar o segundo prêmio num concurso de versos latinos;

1839 - 18 de abril: Expulsão do Colégio Louis-le-Grand por uma ninharia (negou-se a mostrar um bilhete que lhe passara um colega);- 12 de agosto: Baudelaire diploma-se bacharel;- 2 de novembro: Primeira inscrição na Escola de Direito, que jamais freqüentará. Contrai a primeira de suas incontáveis afecções venéreas;

1856 - 30 de dezembro: Contrato entre Baudelaire e a editora Poulet-Malassis e De Broise, à qual o poeta vende os direitos de As Flores do Mal;

1857 - 25 de junho: Lançamento de As Flores do Mal. A coletânea inclui 52 poemas inéditos;- 7 de julho: A direção da Segurança Pública, Órgão do Ministério do Interior, alerta os Tribunais sobre o delito de ultraje à moral pública cometido pelo autor de As Flores do Mal. Dez dias depois, o Tribunal dá a conhecer sua resolução: é instaurada ação judicial contra Baudelaire e seus editores, e ordena a apreensão dos exemplares. No dia 11 de mesmo mês, o poeta escreve para a Poulet-Malassis rogando-lhe esconder "toda a edição";- 20 de agosto: Após ouvir a acusação de Ernest Pinard (o mesmo que conduziu o libelo acusatório contra Madame Bovary) e a defesa de Chaix d'Est-Ange, a 6.ª Vara Correcional condena Baudelaire à multa de 300 francos, seus editores à multa de 100 francos cada um e ordena o expurgo de seis poemas (Lesbos, Mulheres Malditas(Delfina e Hipólita), O Lestes, À; que esta sempre alegre, As jóias, As metamorfoses do vampiro, os chamados "Poemas condenados", incluídos na Marginália (1866) e depois definitivamente incorporados ao texto de As flores do Mal, como se vê a partir da primeira edição póstuma, de 1868);

1860 - 13 de janeiro: Primeira crise cerebral;- 15 de novembro: O Ministro da Instrução Pública concede a Baudelaire uma indenização literária de 200 francos para As Flores do Mal. Estranha Política;

1861 - Março: Baudelaire se diz à beira do suicídio. O que ainda o impede de consumá-lo é o orgulho de não deixar seus negócios em desordem e o desejo de publicar suas obras de crítica;

1863 - 13 de janeiro: Baudelaire cede a Hetzel, por 1.200 francos, os direitos exclusivos de publicação dos Pequenos Poemas em Prosa e de As Flores do Mal¸ que já estavam vendidos a Poulet-Malassis;

1866 - 15 de março: Baudelaire passa uma nova temporada em Namur, na casa dos Rops. Durante umas visita à Igreja de Saint-Loup, o poeta escorrega e cai sobre as lajes. Os distúrbios cerebrais se declaram de forma irreversível. Removem-no para Bruxelas;1866 - 4 de julho: Baudelaire é internado na Casa de Saúde do Dr. Duval, à Rua Dôme, próximo à Étoile. O tratamento hidroterápico proporciona-lhe algumas melhoras. Em seu quarto, ornamentado com uma tela de Manet e uma cópia do retrato da duquesa de Alba, de Goya, ele recebe numerosos amigos;

1867 - 31 de agosto: Morte de Baudelaire, que expira nos braços de sua mãe. Segundo o anúncio fúnebre, o poeta recebeu os últimos sacramentos;1896 - Le tombeau de Charles Baudelaire, com colaboração de 39 escritores, entre os quais Mallarmé.


Uma carniça


(Tradução de Ivan Junqueira.)



Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos

Numa bela manhã radiante:

Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,

Uma carniça repugnante.
As pernas para cima, qual mulher lasciva,

A transpirar miasmas e humores,

Eis que as abria desleixada e repulsiva,

O ventre prenhe de livores.
Ardia o sol naquela pútrida torpeza,

Como a cozê-la em rubra pira

E para ao cêntuplo volver à Natureza

Tudo o que ali ela reunira.
E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça

Como uma flor a se entreabrir.

O fedor era tal que sobre a relva escassa

Chegaste quase a sucumbir.
Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,

Dali saíam negros bandos

De larvas, a escorrer como um líquido grosso

Por entre esses trapos nefandos.
E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,

Ou esguichava a borbulhar,

Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,

Vivesse a se multiplicar.
E esse mundo emitia uma bulha esquisita,

Como vento ou água corrente,

Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita

E à joeira deita novamente.
As formas fluíam como um sonho além da vista,

Um frouxo esboço em agonia,

Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista

Apenas de memória um dia.
Por trás das rochas irrequieta, uma cadela

Em nós fixava o olho zangado,

Aguardando o momento de reaver àquela

Náusea carniça o seu bocado.
- Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida,

Essa medonha corrupção,

Estrela de meus olhos, sol de minha vida,

Tu, meu anjo e minha paixão!
Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza,

Após a benção derradeira,

Quando, sob a erva e as florações da natureza,

Tornares afinal à poeira.
Então, querida, dize à carne que se arruína,

Ao verme que te beija o rosto,

Que eu preservei a forma e a substância divina

De meu amor já decomposto!

Nenhum comentário: